Sunday, June 05, 2005

Gomes Freire de Andrade – “O julgamento” - Carlos Ribeiro

Personagens:

- Gomes Freire de Andrade – O Réu

- Rei D. Miguel – O observador

- O juiz

- Beresford – Acusação

- Principal Sousa – Acusação

- Vicente – Denunciante

- Falcão – O Amigo, Testemunha

- Matilde – Esposa

Palco:

- Tribunal

Havia chegado o grande dia… Gomes Freire de Andrade já se encontrava, no tribunal, passavam apenas 5 minutos das 15 horas, e a ansiedade reinava junto do General, da sua esposa e de Falcão, pois estes eram os principais preocupados com o desfecho do julgamento.

Vários minutos após as horas marcadas para o inicio do julgamento, e após muito sofrimento por parte do acusado, eis que entra, confiante com ar superior o rei D. Miguel. Atravessando toda a sala com um ar imponente e ameaçador, dirige-se ao General e profere-lhe as seguintes palavras:

D. Miguel – O início do fim da tua curta vida começa aqui, agora!

Dirigindo-se à sua cadeira imperial e majestosa, senta-se subtilmente e aguarda a entrada do Juiz, que não se faz tardar e entra logo de seguida.

Com um ar visivelmente cansado e perturbado, lá estava o General aguardando o seu terrível futuro.

O Juiz dá por iniciado ao julgamento.

Juiz – O Réu está presente?

General – Estou sim, meritíssimo.

Juiz – Está aberta a audiência.

Sentando-se começa a citar as razões do dito julgamento.

Juiz – Estamos aqui presentes hoje, pois o General Gomes Freire de Andrade, foi acusado impunemente de conspiração contra El-Rei D. Miguel, sendo assim e havendo as provas mínimas suficientes, o General pode incorrer numa pena de fuzilamento por justa causa.

Chamo a este tribunal a primeira testemunha de acusação, Vicente.

Vicente – Presente e pronto a facultar-lhe todas as informações necessárias, para que o Réu seja impunemente castigado, meritíssimo.

Juiz – Diga-nos tudo o que sabe sob a pena de poder ser também fuzilado caso nos minta ou engane com informações falsas.

Vicente – Senhor meritíssimo, eu como um fiel e leal servidor de El-Rei, procuro conspiradores entre o povo, tendo ouvido rumores de uma conspiração, procurei saber quem comandava o mesmo e entregá-lo-ia imediatamente a El-Rei…

Não deixando acabar a frase o juiz interrompeu-o dizendo:

Juiz – Faça o favor de passar ao que interessa! Deixe-se de rodeios.

Vicente – Muito bem meritíssimo, assim será. Os rumores passavam pela acusação do General, e como pude constatar é verdade. Eu próprio assisti a uma reuniam, na qual se tratou de ajustes e angariação de novos conspirantes para o grupo do General.

General – Meritíssimo, como pode este homem dizer is…

Não deixando nem sequer o General acabar a sua frase o Juiz parou-o, ordenando:

Juiz – Cale-se! Ainda não chegou a sua vez.

Pode retirar-se que entre Beresford.

Beresford – Meritíssimo apenas a verdade interessa, e a verdade é que o General Gomes Freire de Andrade é um dos maiores conspiradores contra El-Rei. Eu penso que o Fuzilamento é pouco.

Juiz – Fale-nos mais implicitamente sobre o que o leva a afirmar isso.

Beresford – Eu não passo de um general estrangeiro, contudo nos meus tempos de General em que convivia diariamente com o General, ele próprio me confidenciou que ansiava por acabar com o reinado.

Esta acusação caiu como uma bomba na sala, Matilde e Falcão, ali presentes ficaram surpreendidos com tal mentira proferida por Beresford.

Juiz – Penso que não há mais nada a dizer… contudo chamo ainda uma última testemunha.

Não estava mencionada mais nenhuma testemunha como tal Falcão, pergunta:

Falcão – Meritíssimo esta próxima e misteriosa testemunha não nos foi referida.

Juiz – Neste tribunal quem manda sou eu e para que não hajam dúvidas quantas mais testemunhas melhor.

Agradado com o decorrer do julgamento, estava o atento observador D. Miguel.

Juiz – Que entre o Principal Sousa.

O espanto foi total, como podia o clero ir a favor da morte de um homem?

Principal Sousa – Meritíssimo, hoje aqui presente venho aqui afirmar com toda a clareza que o General Gomes Freire de Andrade tem que ser condenado, é um homem repugnante, arrogante e que faz tudo para acabar com este fabuloso reinado.

Juiz – Quais são as acusações plausíveis de condenação que tem para me apresentar?

Principal Sousa – Fizeram-me chegar à igreja maior do reino onde actualmente tenho a minha residência imperial, que ao fim de uma eucaristia, estava descaradamente um homem bem parecido, que por sinal era o General Gomes Freire de Andrade, a tentar convencer os paroquianos a gerar um grupo de pessoas para uma conspiração contra El-Rei aqui presente.

Matilde exaltada e chorando tenda defender o seu marido dizendo:

Matilde – Como é possível um homem do clero, afirmar tal blasfémia sobre o meu pobre marido, que não se pode defender?

Juiz – O General terá a sua oportunidade de se defender, aguarde.

Peço a Falcão que se apresente perante mim!

Falcão – Meritíssimo, posso aqui afirmar perante si, que o General é inocente. Ele é um homem de bem, honrado, muito dedicado e leal.

Juiz – Pois… isso é o que dizem todos, se continuar assim só a morte lhe resta… quer fundamentar melhor a sua defesa?

Falcão – Meritíssimo, como é possível insinuar tal coisa? Um homem como o General não pode ser assim humilhado. Morto em frente ao povo? Como um ladrão ou assassino? Quem nos prova que estes depoimentos são reais? Não há justiça neste país…

Irritadíssimo, o juiz exclama interrompendo Falcão:

Juiz – Chega! Que pare por aqui, não permito que se critique tão ilustre reinado, de uma forma tão insolente. Foi um abuso, considere-se avisado para seu bem e do General.

Sussurrando Falcão exclama:

Falcão – Isto não pode acontecer, que falta de ética e compreensão.

Juiz – Por fim chamo o arguido, General Gomes Freire de Andrade.

General – Meritíssimo, como posso eu estar aqui? O que fiz eu? Fui preso injustamente e quero prová-lo.

Com um sorriso irónico, o juiz exclama:

Juiz – Isso é o que vamos ver. Continue mas rápido, já não lhe resta muito tempo.

General – Como posso eu ter sido preso sem que nem um mandato de captura os oficiais tinham? Que justiça existe em Portugal?

Juiz – A justiça é feita pelos poderosos, e pelos seguidores leais a El-Rei.

General – Quem pode afirmar que não o sou?

Juiz – Cale-se já! Aqui quem faz as perguntas sou eu. Foi aqui afirmado que promovia e liderava reuniões conspiratórias contra El-Rei, é verdade? Qual foi a sua intenção ao confidenciar a algumas testemunhas que ansiava por destruir o reinado?

Já surpreendido e visivelmente abatido com as acusações,

General – Nunca tal poderia ter feito, mentirosos! Nem conheço pessoalmente Beresford, como pode ter afirmado tal coisa? Nunca foi minha intenção acabar com o reino. Um reinado tão próspero tem que ser controlado por uma pessoa à altura…

Juiz – Está a tentar insinuar que o reino está mal governado? Estrangeirado…

General – Estou sim! Meu primo não tem amor pelo povo, tem medo que o povo acabe com ele, tenho ódio eterno por ele.

Juiz – Como pode exclamar tal coisa?

General – Este julgamento foi montado para me matar, pois que seja, prefiro morrer com honra do que morrer um ignorante como vocês os seguidores interesseiros de D. Miguel. Não é verdade que conspirei mas é verdade que anseio pelo fim deste reinado que enoja a Europa e tudo que nos rodeia, é preciso que o povo acorde para a vida, é preciso que o povo seja culto e inteligente para perceber o mal que os rodeia…

Juiz – Não percebo como pode um homem da sua cultura espiritual ser tão…

Interrompendo o próprio Juiz o General Argumenta:

General – Não percebo, o próprio Juiz que deveria ser imparcial, e uma pessoa justa e honrada, torna-se neste reino em interesseiro seguidor do rei.

Em tom de visivelmente alterado eis que D. Miguel se pronuncia:

D. Miguel – Como pode um infiel argumentar tal coisa? Quem julga que é o General? Juiz, ordeno que lhe seja decretada a morte por fuzilamento em frente ao povo todo, quero que esteja toda a gente para que ninguém sonhe nunca mais em revolução!

General – O Senhor da desonra finalmente da a sua opinião. Mas Deus é justo e este reinado há-de acabar pelas mãos do povo.

Sorrindo ironicamente D. Miguel exclama:

D. Miguel – Nunca tal acontecerá.

Juiz – Para finalizar este julgamento apenas a sentença falta dar… O General está condenado ao fuzilamento daqui a três dias, e como falta de cooperação e reconhecimento do seu crime, até lá não poderá ser visitado e não comerá nem beberá, de modo a ser um exemplo para os seus seguidores.

Ao fundo da sala ouviam-se choros e lamentações, era Matilde, a mulher do General que via a morte do marido como um fim da esperança do povo na liberdade…

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